A arquitetura da infraestrutura de TI nas organizações contemporâneas passa por uma revisão contínua, impulsionada pela necessidade de otimização de custos (OpEx) e pelo cumprimento de metas de sustentabilidade (ESG). Neste cenário, um componente fundamental, muitas vezes negligenciado, retomou o protagonismo nas discussões estratégicas: o parque de impressão. Historicamente, o mercado corporativo consolidou uma preferência pelas tecnologias a laser, baseada em premissas de velocidade e durabilidade estabelecidas há décadas. Contudo, a evolução da engenharia de impressão transformou radicalmente os dispositivos a jato de tinta (inkjet), posicionando-os não apenas como alternativas viáveis, mas, em muitos casos, superiores tecnicamente para ambientes de alto volume.
Dados de consultorias globais, como a IDC, indicam uma mudança tectônica no market share de dispositivos de escritório, projetando que a maioria das aquisições para o setor empresarial já migrou ou está migrando para a tecnologia a jato de tinta. Essa transição não é acidental; é o resultado de um refinamento tecnológico que superou antigas limitações, oferecendo agora uma equação equilibrada entre performance, eficiência energética e qualidade documental. Compreender essa mudança exige dissecar os mitos do passado e analisar a realidade técnica do presente.
Aprofundamento Técnico: A Engenharia por Trás da Performance Moderna
Para compreender a viabilidade do jato de tinta no ambiente corporativo, é imperativo analisar a física do processo de impressão. Diferente das impressoras a laser, que dependem de conjuntos complexos de fusores, cilindros e aquecimento extremo para fixar o pó de toner no papel, a tecnologia inkjet moderna opera, frequentemente, a frio ou com calor mínimo.
Tecnologia de Cabeça de Impressão e Monitoramento Ativo Um dos avanços mais significativos reside na própria cabeça de impressão. Modelos empresariais atuais incorporam tecnologias piezoelétricas ou térmicas avançadas, equipadas com sistemas de densitometria e verificação de injetores em tempo real. Sensores integrados monitoram o disparo de cada gota microscópica. Ao detectar uma possível obstrução ou falha no fluxo, o sistema realiza ciclos de limpeza autônomos e imperceptíveis, ou compensa a falha utilizando injetores adjacentes. Isso garante uma consistência de imagem que mitiga a intervenção humana e o tempo de inatividade (downtime).
Química dos Fluidos: Pigmento vs. Corante A durabilidade do documento impresso está intrinsecamente ligada à composição química da tinta. As soluções corporativas migraram massivamente do uso de tintas baseadas em corantes (dye-based), que são solúveis em água, para tintas pigmentadas (pigment-based). As tintas pigmentadas contêm partículas sólidas de cor suspensas em um fluido carreador. Ao atingir o substrato (papel), o fluido evapora e as partículas de pigmento ancoram-se na superfície. O resultado técnico é uma impressão resistente à água, à abrasão e ao desbotamento por luz UV, rivalizando ou superando a durabilidade do toner a laser, com a vantagem adicional de uma gama de cores (gamut) frequentemente superior.
Aplicações Práticas e Cenários de Uso
A versatilidade da nova geração inkjet permite sua implementação em setores críticos onde a confiabilidade é inegociável.
- Ambientes Hospitalares e de Saúde: Devido à ausência de fusores quentes, as impressoras a jato de tinta emitem significativamente menos particulados e ozônio do que as laser. Isso as torna ideais para ambientes estéreis ou áreas de atendimento ao paciente, onde a qualidade do ar é prioritária.
- Setores Jurídicos e Financeiros: A precisão das tintas pigmentadas garante a nitidez de caracteres pequenos e a legibilidade de códigos de barras e QR Codes, essenciais para contratos e faturas. A secagem instantânea permite o manuseio imediato dos documentos sem risco de borrões.
- Logística e Varejo: A capacidade de imprimir em diversos tipos de mídia (papéis mais grossos, etiquetas, envelopes) sem o risco de atolamento causado pelo calor do fusor amplia o leque de utilização operacional.
Análise Estratégica: Custo Total de Propriedade (TCO) e Gestão de Ativos
A decisão por uma infraestrutura de impressão deve transcender o preço de aquisição do hardware e focar no Custo Total de Propriedade (TCO). Sob esta ótica, a tecnologia jato de tinta apresenta vantagens estruturais.
Primeiramente, a eficiência energética. Dispositivos inkjet não necessitam pré-aquecer um fusor a 200°C antes de iniciar a impressão. Estudos do setor apontam que essa característica pode reduzir o consumo de eletricidade em até 85% quando comparado a dispositivos laser de classe similar. Em uma organização com centenas de pontos de impressão, essa economia impacta diretamente a linha de despesas operacionais e contribui para as metas corporativas de redução de pegada de carbono.
Além disso, a simplicidade mecânica é um fator de redução de custos de manutenção. Impressoras a jato de tinta possuem menos peças móveis e consumíveis substituíveis (geralmente apenas os cartuchos e a caixa de manutenção) em comparação com as laser (que exigem toner, cilindro, fusor, unidade de transferência, etc.). Isso resulta em menos chamados técnicos e maior disponibilidade do ativo.
Erros Comuns e Mitos de Mercado
Apesar dos dados técnicos, a percepção do mercado ainda é assombrada por experiências de décadas passadas. É crucial desconstruir esses equívocos com fatos atuais.
O Mito da Velocidade e do “Tempo de Aquecimento” Existe a crença de que o jato de tinta é lento. Embora as impressoras a laser possam ter uma velocidade de motor (PPM – páginas por minuto) alta em tiragens longas, elas sofrem com o tempo de aquecimento. Em um escritório típico, onde a maioria dos trabalhos tem menos de 5 páginas, o tempo para a saída da primeira página (FPOT) é a métrica crítica. Como a jato de tinta não precisa aquecer, ela frequentemente entrega trabalhos curtos mais rápido que uma concorrente a laser.
A Falácia do “Secamento de Tinta” O medo de que a cabeça de impressão seque se o equipamento ficar ocioso é um legado de equipamentos domésticos antigos. As máquinas corporativas possuem rotinas de manutenção automatizadas e sistemas de “capping” (vedação) herméticos que preservam a viscosidade da tinta e a saúde dos injetores durante períodos de inatividade.
O Risco dos Insumos Não Genuínos Um erro estratégico grave é comprometer uma engenharia de precisão com insumos de baixa qualidade. O mercado divide-se em três categorias de suprimentos:
- Originais (OEM): Desenvolvidos pelo fabricante, garantem viscosidade, pH e tensão superficial exatas para a cabeça de impressão.
- Remanufaturados: Cartuchos usados que são recarregados. Sofrem de fadiga de material e a tinta injetada raramente possui as propriedades químicas da original, causando entupimentos e cores imprecisas.
- Compatíveis: Cópias não licenciadas. Frequentemente violam patentes e não possuem controle de qualidade rigoroso, podendo causar vazamentos internos que inutilizam a placa lógica do equipamento. A utilização de suprimentos não originais não anula apenas a garantia; ela degrada a qualidade da impressão e reduz drasticamente a vida útil do equipamento, transformando uma economia aparente em prejuízo de capital.
O Futuro do Setor: A Impressão a Frio e a Economia Circular
O horizonte da tecnologia de impressão aponta para a consolidação da “Tecnologia de Impressão a Frio” (Heat-Free Technology). À medida que as corporações intensificam suas demandas por sustentabilidade, a eliminação do calor no processo de impressão torna-se um diferencial competitivo intransponível.
A tendência é a evolução para sistemas de pacotes de tinta de ultra-alto rendimento (RIPS – Replaceable Ink Pack System), que substituem os cartuchos tradicionais por bolsas de tinta capazes de imprimir dezenas de milhares de páginas sem substituição. Isso reduz drasticamente a geração de resíduos plásticos e a logística de suprimentos.
Em suma, a escolha pela tecnologia jato de tinta no ambiente corporativo deixou de ser uma aposta para se tornar uma decisão baseada em dados, eficiência e responsabilidade ambiental. As organizações que compreendem essa transição posicionam-se na vanguarda da gestão eficiente de recursos.





